Há uns meses decidi que queria construir uma plataforma para ajudar explicadores e alunos. Nada de especial , pensei eu. Uma appzinha , uns formulários , um chat , pronto. Pedi à IA , sentei-me na cadeira , e fui buscar café.
Quando voltei , a IA tinha criado 46 sprints , 84 documentos , Message Queues , Schedulers , Agent Runtimes , e algo chamado "Provider Infrastructure". Eu tinha pedido uma tosta , ela fez um banquete de casamento. E eu , como bom anfitrião , disse "obrigado" e fui comendo.
Passados uns tempos , olhei para o projeto e pensei , "isto está quase pronto , não está?" Abri o dashboard e vi 87 mil linhas de código, 52 módulos, 2.355 títulos em bases de dados que não serviam ninguém. E vi uma plataforma educacional onde nem um professor conseguia criar um exercício.
Foi como descobrir que contratei uma equipa de 50 arquitetos para pintar a cozinha. Eles fizeram um projeto lindo , com plantas , elevações , e um estudo de impacto ambiental. Mas a cozinha continuava sem tinta e sem os pintores, os arquitetos não faziam o que eu desejava.
Entretanto , noutro canto da minha mesa , pedi outra coisa à mesma IA. Desta vez fui específico. Muito específico. Disse-lhe exactamente o que queria , quantos ficheiros podia criar , que não inventasse nada , e que se desviasse um milímetro eu puxava a trela.
Ela fez 34 ficheiros. 2.500 linhas. E funcionou. A primeira vez. Sem mock , sem "preparação para o futuro" , sem abstrações que só um doutorado em Engenharia de Software consegue pronunciar.
A mesma IA , a mesma ferramenta , o mesmo orquestrador. Eu é que mudei.
Decidi perceber o que tinha corrido mal. Criei um questionário de oito perguntas para fazer à IA antes de cada sprint. Perguntas simples , do tipo que um miúdo de cinco anos faria.
"Quantos ficheiros criaste?"
"Estás a fazer algo que eu não pedi?"
"Há alguma coisa 'para o futuro'?"
"Quando é que isto está pronto , sem testes , sem documentação , sem refatoração?"
A IA respondeu. E admitiu. Disse que tinha criado cinco ficheiros de serviços quando eu só pedi dois. Disse que tinha deixado "preparado para quando quisesses adicionar TPCs". Disse que tinha adicionado adapters para cinco LLMs diferentes quando eu só uso um.
Ela sabia que tinha fugido. Eu é que não tinha perguntado.
Aprendi três coisas duras. Primeiro , a IA não é má. É obediente. Se lhe deres corda , ela constrói um arranha-céus. Se lhe meteres trela curta , ela traz o coelho.
Segundo , "para o futuro" é a frase mais perigosa do vibecoding. Não existe futuro. Existe hoje. Se não precisas agora , não entra não deixes que a IA crie ruido.
Terceiro , a especificidade é a vacina contra o caos. Quanto mais específico for o pedido , menos espaço a IA tem para improvisar. Um pedido vago é um convite aberto para a criatividade descontrolada de uma máquina que nunca precisa de dormir.
Foi da vergonha de ter 87 mil linhas de nada que nasceu uma ideia. E se existisse uma ferramenta que me dissesse , em tempo real , que o meu projeto está a fugir? E se eu pudesse ver , de um relance , que construí quarenta mil linhas de infraestrutura antes de entregar a primeira funcionalidade ao utilizador?
Chamei-lhe Navigator. Não porque seja sofisticado. Porque eu precisava de um mapa. E de alguém que me dissesse , sem rodeios , "estás perdido , amigo", está a ser preparada para eu apresentar noutro artigo.
A IA não vai substituir programadores. Vai substituir quem não sabe pedir. E quem não sabe pedir , constrói catedrais quando quer cabanas de praia.
O meu projeto de streaming funciona porque eu aprendi a pedir. O meu projeto educacional está em cirurgia porque eu aprendi a perguntar. E o Navigator está a crescer porque eu aprendi que , às vezes , a ferramenta mais importante não é a que constrói. É a que nos diz quando parar.
